Para a Regina
Luis Fernando Verissimo
Do baú. O programa se chamava Muvuca, com a Regina Casé, e fiz alguns textos para ela. Num, a Regina era uma atriz americana sendo entrevistada no Brasil. Ela falava “dublado”, com um completo desencontro entre os movimentos da sua boca e as palavras que se ouviam.
REPÓRTER – Miss Case, o que você está achando do Brasil?
REGINA (EM PORTUGUÊS PERFEITO, EMBORA SEUS LÁBIOS “FALEM” INGLÊS) – Bem, eu estou aqui para lançar o meu primeiro filme para a tela grande, mas sei que sou muito popular na televisão brasileira, apesar de falar com esta voz que eu não sei de quem é, mas não é a minha, pois não conheço uma palavra em português.
REPÓRTER – E qual é a sua impressão do Brasil?
REGINA – Você vai ter que me desculpar, querido, mas não tenho a mínima ideia do que você está dizendo. Para falar a verdade, não tenho a mínima ideia do que EU estou dizendo. Próxima pergunta.
REPÓRTER – A que você atribui sua popularidade no Brasil?
REGINA – Eu adoro a música brasileira, especialmente Paulo Coelho (RISADAS). Bem, vejo que disse alguma coisa engraçada, pois todos estão rindo. Eu gostaria de saber o que foi. (REGINA ENUNCIA “SHIT” MAS OUVE-SE:) Droga!
REPÓRTER – É verdade que você pretende filmar com um diretor brasileiro?
REGINA – Oh, não. Eu e Brad Pitt temos apenas uma amizade antiga e ele está felizmente casado com uma boa amiga minha. Engraçado, acabo de ouvir o nome de Brad Pitt e acho que foi dos meus próprios lábios dessincronizados. Meu Deus, o que será que eu estou dizendo para esta gente nesta maldita língua, e com esta maldita voz?
REPÓRTER – Alguma mensagem para o público brasileiro, miss Case?
REGINA (“DIZENDO” SHIT, SHIT, SHIT) – Droga, droga, droga!
REGINA NO MEIO DA TORCIDA NUMA ARQUIBANCADA DE FUTEBOL, GRITANDO PARA UM JOGADOR EM CAMPO
REGINA – Vai, Betão! É tua! Ó Betão! Ó desgraçado! Tu qué me matá? Te coloca, Betão. Olha a bola alta, Betão! O Betão em bola alta... Eu não quero nem olhá... (VIRA O ROSTO, DEPOIS ESPIA) Ele rebateu? Boa, Betão. Tem que dá chutão mesmo. (PARA AS PESSOAS EM VOLTA: ) Esse daí eu conheço desde garoto. Filho da vizinha. Vi ele começar a... Olha o contra-ataque, Betão! Vai nela, animal! Ó Betão! Ó Betão! Sai do chão e vai jogá bola, ruindade! Tu tá enterrando o time! Outra coisa, inconsciente: vê se telefona pra tua mãe de vez em quando! Custa dar um telefonema, pô?
REGINA E OUTRA TORCEDORA SENTADAS NUMA ARQUIBANCADA. O JOGO JÁ ACABOU E É EVIDENTE QUE ACABOU MAL PARA O TIME DELAS. ELAS NÃO PODEM ACREDITAR NO QUE ACONTECEU
REGINA – Mas o que que é isso?
OUTRA – Quatro a zero!
REGINA – O time jogando direitinho, no ataque, e eles vão lá quatro vezes e fazem quatro...
OUTRA – Não dá pra acreditar...
REGINA – Alguma coisa não fechou. Só pode ser.
OUTRA (EXAMINANDO-SE) – Como, não fechou? Está tudo fechadinho. Mesma camiseta, mesma calça, mesma faixa...
REGINA – E os santos?
OUTRA (MOSTRANDO AS CORRENTES NO PESCOÇO, SOB A CAMISETA) – Está tudo aqui. São Jorge, São Judas Tadeu, São Benedito goleador... E você?
REGINA – Tudo fechado, milha filha. (ABRE UM SACO E MOSTRA) Cordão de Santa Efigênia com três nós, colar de 17 conchas, cruz de carvalho amarrada com linha preta... Mesma camiseta, mesma calça, mesma faixa, mesma calcinha...
OUTRA – Mesma calcinha?
AS DUAS FICAM SE OLHANDO POR UM TEMPO
REGINA – Você mudou a calcinha, Araci?
OUTRA – Mudei.
REGINA – Está explicado.
OUTRA – Eu ia ficar com a mesma calcinha, Jandira? Tem dó.
REGINA – Está aí. Mudou a calcinha – quatro a zero. Só podia ser.
OUTRA – Tinha que mudar a calcinha, não é, Jandira?
REGINA – Por quê? A higiene é mais importante do que o time, é? Precisava mudar de calcinha logo na boa fase? Olha aí, pessoal. Tá aqui a culpada. Levamos quatro por causa dela. Ela mudou a calcinha!
OUTRA – Ó Jandira!
REGINA – Culpa da dondoca aqui, ó.
REGINA COMEÇA A BATER NA OUTRA COM O CORDÃO DE SANTA EFIGÊNIA E O COLAR DE CONCHAS.
Domingo, 26 de outubro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.